2.4.14

O Estrela Viva no «Comércio de Alcântara»

Aqui deixamos os nossos maiores agradecimentos ao «Comércio de Alcântara», pela enorme simpatia de expressar as nossas preocupações junto da comunidade que serve.
Foi com grande carinho que observámos e analisámos esta reportagem (na página 5 da 2ª edição de Março) deste nosso conhecido e respeitado periódico bairrista.

Nesta publicação vos deixamos a reportagem completa.



25 de Abril, 40 anos/ 40 murais - Os murais amordaçados


Foi pintado e está a ser finalizado, pela APAURB (Associação Portuguesa de Arte Urbana), a mesma associação que decorou tão generosa e magistralmente o túnel pedonal da estação de Alcântara-Mar, o primeiro de 40 murais que serão pintados em Lisboa, evocando os 40 anos do 25 de Abril de 1974.

Local. O longo muro camarário da Rua do Cais de Alcântara, na Freguesia da Estrela.
A iniciativa é engraçada e singela para evocar a revolução dos cravos e a APAURB apressou-se a convocar as suas “tropas” pondo mãos ao trabalho.
Nesta questão da arte urbana é-se geralmente unânime, já que as intervenções visam embelezar, decorar, reparar, reabilitar, áreas degradadas, ou despidas de mensagem.
Só que aqui nada disso aconteceu.

Quem nos alertou foi Miguel Louro, morador da Freguesia da Estrela. O trabalho da APAURB estava a destruir um conjunto de fantásticos murais existentes no local e inclusivamente esteve quase para desaparecer uma escultura do conhecido Alexandre Farto, que se assina Vhils.
Graças a um grupo de cidadãos que activamente se interpôs, em que se incluiu Miguel Louro e o blog "Estrela Viva", a escultura foi salva mas descontextualizada, naquilo que consideramos a destruição pura e simples da mensagem de Vhils, o seu autor.

Quanto ao resto tudo desapareceu e o resultado final está à vista, conforme documenta a imagem do topo da página: um mural tristonho, redundante, sem imaginação, em tons ocres, que eventualmente reportam para uma Alcântara industrial dos tempos de Abril, mas há muito desaparecida, num tom monocórdico em que o laivo de graça acaba por ser a escultura de Vhils - e o que lhe fizeram à
volta -, elemento de ruptura que parece estar a protestar contra o que lhe acaba de acontecer.

Face à destruição dos murais, os responsáveis da APAURB justificaram-se, em declarações na internet da seguinte forma que transcrevemos: "as pré-existências desta parede foram acompanhadas e executadas por
membros da associação, incluindo a "escultura" do Vhils. Temos autorização e aceitação de todos para executar o trabalho que está agora em curso".

Nem doutra forma supomos que fosse. Mas a questão é quem deu luz verde para este verdadeiro atentado à arte urbana e à sua mensagem, ou será algum de tais murais era incómodo e urgia ser substituído por este mais asséptico?

É que afinal, não basta à APAURB evocar a autoria dos murais anteriores para que se tenha no direito de os destruir, já que entendemos que qualquer obra deste género, uma vez concluída passa a ser património de todos nós.

Afinal há mural, mas há moral?

Luís Sampaio Howell

Nota - as imagens que ilustram este texto permitem observar a transformação efectuada no muro da Rua do Cais de Alcântara, bem como os diversos painéis destruídos.


  



A reportagem original pode ser lida aqui: