31.8.13

Santos-o-Velho, a Lisboa pós-renascentista


Santos-o-Velho (por vezes designada apenas Santos) é uma das mais antigas freguesias do concelho de Lisboa, criada em 1566 por desanexação da freguesia de Nossa Senhora dos Mártires.

A proximidade ao Convento das Comendadeiras (transformado por D. Manuel I em Paço Real em 1501), propiciou a construção de várias casas senhoriais e de outros conventos, muitos dos quais sobreviveram aos tempos.
O terramoto de 1755 pouco afectou o bairro, não se registando sequer vítimas, assinalando-se somente a ruína parcial de alguns edifícios e a derrocada do Palácio dos Duques de Aveiro e do Convento das Bernardas.

Tem uma área de 0,51 km², estendendo-se a sul ao longo do Tejo desde a Avenida D. Carlos até ao Cais da Rocha Conde de Óbidos e a norte da Assembleia da República à Rua de São Domingos à Lapa.


O aspecto que melhor define Santos-o-Velho na actualidade é a heterogeneidade das suas vivências, onde a cultura tradicional se concilia com a actividade dos restantes agentes sociais, económicos e culturais (museus, teatro, dança e design), assim como a sua variada oferta ao nível da restauração e da diversão nocturna.




Património da Santos-o-Velho


Museu Nacional de Arte Antiga

Inaugurado oficialmente em 11 de Maio de 1884 com o nome de Museu Nacional de Bellas Artes e Arqueologia, é o mais importante museu de arte dos séculos XII a XIX em Portugal. Inclui colecções de pintura, escultura, desenho e artes decorativas, maioritariamente europeias, mas também orientais representativas das relações que se estabeleceram entre a Europa e o Oriente na sequência das viagens dos descobrimentos iniciadas no século XV.
Localizado num palácio dos finais do século XVII, é também conhecido como Palácio de Alvor (por ter sido construído por D. Francisco de Távora, primeiro conde de Alvor), englobando actualmente as antigas instalações do Convento das Albertas, ala edificada no final dos anos 1930.



Igreja de Santos-o-Velho

Edificada em 1147 sobre os vestígios de um presumível templo tardoromano do século IV, foram as intevenções de 1696 e as obras de restauro em 1861 e 1876 que lhe conferiram o perfil que hoje conhecemos.
Trata-se de uma igreja cuja fachada principal (ladeada por duas torres sineiras e rematada por frontão triangular vazado por janela iluminante) surge rasgada por um portal de arco abatido, encimado por um relevo dos santos mártires, orago da igreja.
No seu interior situam-me a Capela dos Santos Mártires (onde se crê estar a sepultura dos mesmos), a Capela de Nª Senhora da Conceição, a Capela do Santíssimo Sacramento e 6 capelas laterais. Na capela-mor profunda, evidencia-se a pedra de armas dos marqueses de Abrantes, os quais cederam o terreno para a sua construção.



Chafariz da Esperança

Construído no século XVIII segundo projecto do húngaro Carlos Mardel, surgiu na sequência da construção do Aqueduto das Águas Livres, que visava resolver as questões de fornecimento de água de Lisboa. Edificado num terreno que pertencia ao convento franciscano de Nossa Senhora da Esperança, era abastecido por meio de uma galeria que vinha directamente do reservatório das Amoreiras.
A estrutura tem dois pisos, cada um com um tanque (o inferior para os animais e o superior para o povo), duas escadas laterais e é do estilo barroco. Possui igualmente um pórtico ao estilo pombalino, tendo sido classificado como Monumento Nacional a 16 de Junho de 1910.



Convento das Trinas do Mocambo

Fundado em 1657 sob invocação de Nª Sra. da Soledad, este convento de freiras reformadas da Ordem da Santíssima Trindade foi definitivamente encerrado em 1910, tendo todo o recheio da igreja desaparecido.
Imóvel de Interesse Público, a sua fachada rígida (dividida em 2 corpos) é animada apenas pela porta do corpo da igreja onde se inscreve um relevo de Nª Sra. da Piedade e pela porta de acesso à zona conventual, rematada por frontão com cantarias trabalhadas.
Hoje em dia, nele funciona o Instituto Hidrográfico, que em 1969 fez importantes obras de restauro e adaptação às novas funções. No interior destaca-se o património azulejar barroco da portaria do convento e o setecentista do refeitório, actual Centro de Documentação do referido Instituto.





Convento das Bernardas do Mocambo

Convento de religiosas recoletas da Ordem de Cister ou de São Bernardo, sob invocação de Nossa Senhora da Nazaré, foi fundado em meados do século XVII e totalmente destruído pelo terremoto de 1755, sendo depois reedificado segundo projecto do arquitecto italiano Giacomo Azzolini.
Com a extinção das ordens religiosas em 1834 e a sua venda a particulares em 1851, conheceu sucessivas ocupações (colégios, teatro, cinema, mercearia, armazém), até que no início do século XX se transformou em habitação para uma numerosa população de precários recursos económicos, que vivia nas piores condições de salubridade, higiene e segurança.
Classificado como Imóvel de Interesse Público, foi objecto de reabilitação no final do século XX e início do XXI, transformando-se num pólo de animação socio-cultural composto - entre outros equipamentos - por zona de habitação, zona comercial e Museu da Marioneta.



Cinema Cinearte

No Largo de Santos, foi apresentado em 1937 um projecto para se erigir um cinema à Inspecção Geral dos Espectáculos, que tinha como nome original "El Dorado". Dirigido pelo famoso arquitecto Raul Rodrigues Lima, tinha inicialmente 790 lugares, distribuídos pela plateia (478) e balcão (312).
Alvo de algumas alterações em 1939/1940, adopta então o nome de "Cinearte".
A 13 de Novembro de 1940, o Cinearte abria as suas portas com a transmissão do filme "Não o levarás contigo", de Frank Capra com James Stewart e Jean Arthur.
Sendo alvo de novas reestruturações em 1945 e 1973, acaba por encerrar definitivamente em 1981, vindo a ser reactivado como sala de teatro em 1990, depois de ter sido adquirido pela companhia teatral "A Barraca", mantendo essa função até à actualidade.



Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos

Edifício portuário junto à foz do Rio Tejo concebido numa estética modernista, foi construída entre 1945 e 1948 segundo um projecto de arquitectura da autoria de Pardal Monteiro. Tem uma estrutura em betão armado, estando o primeiro andar reservado aos passageiros e o piso térreo aos serviços do cais. A gare é composta por dois corpos: um vestíbulo principal e uma ampla nave, prolongando-se o terraço-varanda na direcção nascente para além dos limites do edifício.
À semelhança da Gare Marítima de Alcântara, também aqui Pardal Monteiro chamou Almada Negreiros para realizar murais decorativos nas paredes do grande vestíbulo.







Pátios e Vilas

Uma das mais relevantes características arquitectónicas de Santos-o-Velho são as suas Vilas e Pátios, arruamentos reconhecidos pela Câmara mas não geridos directamente por esta.
Na sua generalidade, actualmente a necessitarem de intervenções de reestruturação, destacamos a Vila Doroteia (na Rua das Trinas), constituída por vários becos e pátios habitados tradicionalmente por trabalhadores de uma fábrica que em tempos ali existiu. Com o desaparecimento da fábrica a sua população diminuiu, mas algumas pessoas mais idosas aí permaneceram até hoje.
Nas imediações, há outros 8 Pátios que - cremos - virão a ser alvo de atenção por parte do próximo executivo da Junta, pela relevância histórica que emanam e em função do estado de degradação que lamentavelmente atingiram.




Bairro da Madragoa

A Madragoa é um bairro popular de Lisboa, à beira do Tejo, cujo nome deriva da presença em tempos do Convento das Madres de Goa. Caracteristicamente um local de cruzamento de raças e culturas diferentes, sem distinção, albergava os negros que amanhavam os campos e dava abrigo aos pescadores que fainavam no rio, ainda ecoando na memória dos mais velhos o pregão das varinas.
Conta a lenda que o bairro nasceu dos milhares de grãos de areia que as gaivotas transportaram para ali. A origem do seu nome perde-se no tempo, havendo quem afirme que a palavra corresponde ao apelido de uma fidalga madeirense "Mandragam" ou que vem de "Madre de Goa". Outras teorias afirmam possa terá advindo do nome dum lugar pré-existente onde se daria culto em tempos arcaicos a uma deidade da "Madrugada".
Antes do terramoto, no século XVIII, o bairro tinha o nome de "Mocambo" e não era mais do que uma pequena póvoa habitada essencialmente por pessoas de origem africana.

No passado, parte da Madragoa foi um aglomerado de conventos e palácios, onde viveram as Trinas, as Bernardas ou as Inglezinhas, mas foram os trabalhadores que deram vida ao bairro.
Entre os séculos XVIII e XIX, a população sofreu grandes alterações. Nessa altura, veio para Lisboa muita gente da região da ria de Aveiro, em especial de Ovar (e daí derivará a designação de varinas, a partir de ovarinas), de Ílhavo e da Murtosa que comercializavam legumes frescos e peixe.

De entre as muitas obras arquitectónicas da Madragoa, destaca-se o Palácio dos Duques de Aveiro, a Casa dos Marqueses de Abrantes e a mais antiga e modesta das capelas lisboetas, a dos Mártires. Também lá se encontra a Embaixada de França, onde Gil Vicente (depois do Castelo de São Jorge) deu início ao teatro português.
Ao nível da freguesia da Estrela, a Madragoa é um local que despertará grande interesse e importância, na medida em que constitui o seu único Bairro Popular, sendo presença de constante relevo nas Marchas de Lisboa.



Outros Apontamentos Relevantes

Marcada por profundas alterações nos seus limites geográficos ao longo dos séculos (conforme se poderá comprovar pela leitura dos textos relativos à Lapa e aos Prazeres), a zona que actualmente conhecemos como Santos-o-Velho será - por excelência - a área da nova Estrela dedicada ao turismo e à diversão nocturna.
Bastará uma análise atenta à realidade envolvente para nos apercebermos que os vários bares e restaurantes já existentes tenderão apenas a ver aumentada a sua presença, da mesma forma que uma profunda renovação da Madragoa será um passo óbvio que em breve virá desenvolvido na prática, com todas as mais directas e imediatas consequências já observadas em Alfama e na Mouraria.

Por estes exactos motivos, a definição de um Plano de Pormenor coerente e inteligente será uma exigência sine qua non, não podendo a população ser ignorada, mas antes devendo vir convidada a participar activamente na elaboração do mesmo, dadas as profundas alterações que daí advirão para as suas vidas pessoais e familiares.
As garantias de sustentabilidade social serão, como tal, o principal ponto de discussão nos próximos anos, antevendo-se diversos momentos de polémicas e confrontações, que se desejam saudáveis e democráticos.


Santos-o-Velho: meio milénio de um povo, dos palacetes à Madragoa.