28.8.13

Lapa, do terremoto aos dias modernos


A Freguesia da Lapa foi constituída em 11 de Fevereiro de 1770, pelo Cardeal Arcebispo D. Francisco de Saldanha, a partir da igreja nova da Lapa, possivelmente a primeira edificação religiosa erguida depois de 1755, que foi sede paroquial da freguesia até 1886, ano que passou para a Basílica da Estrela, mantendo o orago de Nossa Senhora da Lapa.

O nome de Lapa teve a sua origem, segundo documentação consultada, numa rocha denominada Lapa da Moura, que se encontrava junto à Pampulha, fora dos limites actuais da freguesia. Esta designação foi-se estendendo para Norte e Nascente e foi com os tempos perdendo o acessório "da Moura".

Com uma área de 0,72 km², o plano de divisão das freguesias firmou-lhe o território que foi destacado de Santos-o-Velho e parte da extinta freguesia do Senhor Jesus da Boa Morte.


O desenvolvimento da Lapa deu-se após o terremoto de 1755, pelo aforamento dos terrenos adjacentes ao Convento das Trinas, iniciando-se por quitação de um terreno a Nicolau Possolo e que originou, para além do aforo, a demolição de um Moinho de Vento, criando ruas e travessas que actualmente se denominam, Moinho de Vento e Possolo, sofrendo a malha urbanística e as edificações de orientação pombalina.



Património da Lapa


Palácio de São Bento

O Palácio de São Bento, é um enorme edíficio de estilo neoclássico situado em Lisboa, sendo a sede do Parlamento de Portugal desde 1834. Foi construído em finais do século XVI como mosteiro beneditino (Mosteiro de S. Bento da Saúde) por traça de Afonso Álvares. Com a extinção das ordens religiosas em Portugal passou a ser propriedade do Estado. No século XVII, foram construídas as criptas dos marqueses de Castelo Rodrigo.
Foi tendo várias denominações oficiais: Palácio das Cortes (1834-1911), Palácio do Congresso (1911-1933) e Palácio da Assembleia Nacional (1933-1974). Em meados do século XX passou a utilizar-se, geralmente, a designação de Palácio de S. Bento em memória do antigo Convento.



Basílica da Estrela

A construção da Basílica da Estrela e do Convento das Carmelitas Descalças (este ocupado por serviços públicos desde 1885) iniciou-se em finais do sec. XVIII em resultado de um voto de D. Maria I, nela intervindo os arquitectos Mateus Vicente de Oliveira e Reinaldo Manuel.
Primeira igreja no mundo dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, apresenta características do estilo barroco final e do neoclássico.
Para além de várias pinturas de Pompeo Batoni e de um presépio de Machado de Castro, este templo dispõe de dois órgãos: o grande órgão (construído em 1789) e o órgão de coro (1791).
Aqui se encontra também o túmulo de D. Maria I, no transepto direito.



Jardim da Estrela / Guerra Junqueiro

O Jardim da Estrela - mais tarde renomeado Jardim Guerra Junqueiro - foi inaugurado a 3 de Abril de 1852, tendo sido construído por iniciativa do ministério de Costa Cabral, com o apoio de Dª Maria II. Com 4,6 hectares, segue o estilo dos jardins ingleses, de inspiração romântica, possuindo vários elementos de estatuária.
Inicialmente cenário da evolução gradual dos costumes alfacinhas, foi gradualmente perdendo o interesse para a aristocracia, assumindo a partir daí e até cerca de 1952, um carácter popular.
Em 1871, Paiva Raposo ofereceu ao jardim o famoso Leão da Estrela. Elemento de destaque é também, para além da extensa flora, o Coreto (retirado da Av. da Liberdade em 1936).



Casa de António Sérgio

Democrata, ensaísta, filósofo, historiador, pedagogo, político e reformador das mentalidades dos portugueses, António Sérgio foi activo participante em movimentos cívicos e culturais após a implantação da República e o grande divulgador das teorias cooperativas europeias entre nós.
A Casa António Sérgio, situada na Travessa do Moinho de Vento, é um espaço de habitação unifamiliar, construída em 1925, composta por 3 pisos (2 andares e sótão).
Hoje em dia, alberga a Biblioteca da Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES), de acesso público. Este espaço possui ainda um fundo composto pela Biblioteca pessoal de António Sérgio (BAS) e por parte do seu espólio (originais e manuscritos, recortes de jornais, correspondência e fotografias).



Palacete dos Viscondes de Sacavém

Exemplar do romantismo tardio dos finais de Oitocentos, este edifício eclético,mandado construir pelo Visconde de Sacavém, entre 1897 e 1900, tem projecto do arq. H. Faria Blanc e apresenta uma bizarra decoração cerâmica naturalista e revivalista, muito exuberante e na linha da Escola de Bordalo Pinheiro, que associa o azulejo azul e branco a peças em relevo, destacando-se os aventais da janela de sacada e das janelas de peito que ladeiam essa janela principal do andar nobre, assim como os frisos e as molduras de cerâmica relevada de colorido vibrante.



Palacete do Conde de Agrolongo

Com projecto do arq. Arnaldo Adães Bermudes, foi mandado construir pelo conde de Agrolongo em 1909, tendo-lhe sido atribuída uma menção honrosa do Prémio Valmor desse ano.
Palacete urbano com função residencial, de planta quadrangular, desenvolve-se em três pisos, sobressaindo do conjunto uma torre, também de planta quadrada mas de quatro pisos, que dispõe no topo de um mirante.
A sua linguagem eclética, perfeitamente moderna, inspira-se nas últimas fases do renascimento, lembrando a arquitectura das épocas de Henrique IV e Luís XIII, misturando, também, alguns motivos característicos da arquitectura portuguesa da mesma época.
Obras de remodelação posteriores alteraram a sua traça inicial, essencialmente ao nível da fachada, pois o terraço existente foi suprimido, assim como alguns dos motivos decorativos mais expressivos (molduras, frontões das janelas e portas, balcões com balaústres, pormenores escultóricos, entre outros).



Palacete de São Bento

Actual Residência Oficial do Primeiro-Ministro, foi mandado construir em 1877 por Joaquim Machado Cayres num lugar com cerca de 2 hectares que integrava o Convento de S. Bento desde 1598, situando-se na parte traseira do actual Parlamento.
Expropriado em 1937 para efeito de obras, António Salazar ocupou a casa em Maio de 1938, tendo a inauguração oficial ocorrido em Abril de 1939.
Após o 25 de Abril, a moradia e o jardim sofreram algumas modificações, mas foi depois das renovações de 1986 que ganharam uma maior operacionalidade e uma imagem mais moderna.






Jardins e Espaços Verdes

Presença constante ao longo de toda a freguesia (atingindo o seu expoente máximo no já referido Jardim da Estrela), os espaços verdes são uma imagem de marca das ruas da Lapa. Consequência natural dos vários palácios e palacetes que constituem denominador comum ao longo da sua área demarcada, constituem um garante da qualidade de vida que a todos agrada.
Destacam-se, de entre estes, o Jardim das Francesinhas (construído em 1935 com o nome original de Jardim Lisboa Antiga) e o Jardim Elisa Baptista de Sousa (1930, também conhecido como Jardim Salazar ou Jardim da Imprensa), mas são vários outros os espaços verdes cuja modéstia não deixa de ser relevante, como são exemplo o Jardim 5 de Outubro (ou Jardim da Burra) e os espaços ajardinados da Rua Domingos Sequeira e da Avenida Infante Santo.




Casas Senhoriais e Embaixadas

Bairro eminentemente habitado pelas mais altas classes sociais, dada a proximidade do Palácio das Necessidades (Residência Real da Dinastia de Bragança a partir de Dª Maria II), encontram-se por toda a Lapa variadas casas senhoriais, actualmente ocupadas por instituições de grande envergadura, como são exemplo o Provedor da Justiça e as mais diversas embaixadas, consulados e residências oficiais.
Com particular destaque para a zona envolvente à Rua do Sacramento à Lapa, onde pontificam desde a Residência Oficial do Embaixador dos Estados Unidos até às embaixadas da China, da Dinamarca, Suécia, Luxemburgo, Letónia e Bulgária (entre inúmeras outras), é esse facto o principal responsável pelo actual excelente estado de conservação dessa área da freguesia, a qual é sempre merecedora de um agradável e atento passeio, pela imponente beleza arquitectónica que emana a cada esquina.



Outros Apontamentos Relevantes

Estendida ao longo de uma colina, a Lapa é marcada por fortes declives, o que permite em diversos pontos a observação de paisagens de enorme atractividade, sobretudo as que espelham o Tejo como pano de fundo.
Inicialmente criada em redor de um conceito religioso, vários são os conventos, igrejas e capelas que marcam a sua evolução, alguns das quais ainda se mantêm em elevado grau de conservação. Da mesma forma, a centralização do poder decisório nacional no actual Palácio de São Bento ocasionou a coexistência da sua população com factos históricos de grande relevo, o que dá um carácter de imensa importância à freguesia.

Mas não se fica só pela História recente a sua origem, pois vários dados apontam para a presença de pessoas nesta zona desde o Paleolítico Inferior, sendo por isso habitada há milénios.


Lapa: a história de Lisboa depois do terremoto.